Banda mineira celebra o excelente momento com agenda intensa, gravação de Ao Vivo e a mensagem sendo espalhada.
O Black Pantera é mais do que uma das melhores bandas de rock e metal do Brasil nessa renovação que tanto buscamos no estilo. É também uma das mais necessárias e representativas.
A mensagem é clara e sem rodeios: são músicas que abordam, dentre vários temas, o machismo, fascismo, nazismo e, claro, o racismo. Pra que ninguém venha dizer no futuro que “gostava quando eles não falavam de política”, a banda desde o seu nascimento se assume como uma banda preta antirracista, o que engloba também outros temas como mencionados acima. O resultado disso é uma banda que obviamente – e lamentavelmente – é atacada, mas também deu voz, sentido e representatividade para milhares ou milhões de pessoas, inspirando-as inclusive em redações de provas para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).
Eu já encontrei com a banda em diversos eventos em Campinas, Americana e até em grandes festivais em São Paulo, mas dessa vez em Limeira eu pude registrar um bate-papo com eles antes de incendiarem tudo num show memorável na Mutante Bar, que se tornou um pico de resistência na cidade.
BOLASHOW – Pancho, o Black Pantera conquistou espaços no Rock in Rio, Knotfest, Hellfest, The Town, e ao mesmo tempo a banda não abre mão de tocar em espaços menores, como hoje aqui na Mutante Bar em Limeira. Claro que tocar num festival grande dá uma ansiedade e um gás forte, mas o que o underground, e esses espaços menores oferecem que esses espaços gigantescos não dão?
RODRIGO PANCHO – Cara, eu vou te falar que oferece o calor humano, né? Porque você toca aqui num espaço menor, você está ali toda hora em contato com o público. Aqui é onde a gente literalmente faz a nossa base de fãs. É no underground, é tocando no interior. O Black Pantera é de Uberaba, uma cidade do interior, então a gente gosta de tratar o nosso público como a gente gostaria que os nossos ídolos tratassem a gente. Então assim, você está no rolê underground, você está aqui trocando ideia com todo mundo, está ali vendendo o nosso merch. A gente se sente em casa, né? É o calor humano que o underground proporciona. Quando você está num evento maior, é legal porque você toca para uma gama de pessoas de uma vez ali, você expande o som, mas é uma parada mais fria, você está mais distante do público. Já aqui você está pertinho, e isso é sensacional.
BOLASHOW – Chaene, eu fui ver vocês em Campinas e teve uma cena que me marcou bastante. Eu tava na grade e do meu lado tinha dois molequinhos que eles eram fãs do Black Pantera, eles estavam com os olhos brilhando, vendo vocês cantar e tocar, e berraram as músicas, porque as letras significam pra eles. E além dessas crianças, tem a história do Enem. Jovens e adolescentes do Brasil inteiro citaram Black Pantera (na redação). Como que é hoje, numa sociedade que é tudo tão supérfluo, tudo tão rápido, vocês mesmo sendo do underground são ouvidos, entendidos e a mensagem de vocês é disseminada pelo seu público.
CHAENE – Eu acho que é o poder da arte, né cara? O letramento racial é uma parada que é importante. A gente agradece aos professores que ministram também nas suas aulas e aplicam Black Pantera nessa molecada. A gente gravou o DVD no Circo Voador (RJ) semana passada e um professor estava emocionadão e falou “cara, eu pus o clipe de vocês de Candeia e os meus alunos – acho que são da sexto ano – ficavam falando pra por aquela música da Pólvora, Pólvora, Pavio, Candieiro”. Então assim, de alguma forma essa chave vai sendo virada e aí quando falam de antirracismo, ali o Black Pantera está e isso é algo que a gente tinha noção de que era importante ter uma profundidade pra saber o que estava falando, pra trazer essas referências pretas pra essa molecada poder entender. Então cada vez mais o Black Pantera acaba sendo essa potência de unir rock, música e também esse letramento racial que é tão importante. E ver essa molecada nos shows, ver as meninas, muitas meninas de várias idades, representa muito pra nós, porque é um sonho, né? Você se ver ali no palco. Quantas vezes a gente esteve no público e às vezes pensava “ah, ok…”, porque a gente não se sentia tão representado. Aí então você vê ali o guitarrista, o baixista, o batera, todos pretos, os caras falam “é isso que eu quero fazer, eu quero ter uma banda preta também”. É igual eu, por exemplo, eu vi o Ranger Negro agora no evento geek, né? E assim, o cara foi um espelho pra mim, eu via ele na TV quando era moleque, o cara era um cara preto e era um super-herói, então essas referências… Poder se espelhar, poder ter essa noção, isso é muito foda. Muito obrigado mesmo a todo mundo, aos professores, aos alunos, a todo mundo que acompanha essa molecada.
BOLASHOW – Pra quem não sabe, o Charles começou tudo isso aqui. Começou toda essa história. Ele sofreu um não do próprio irmão, que não negou o baixo pra ele (risos). Daí veio o não do Rodrigo (mais risos). O Charles criou as músicas, recrutou o irmão, recrutou o Rodrigo, passou perrengue na França, lá na Europa, dormiram na rua. Veio pandemia, vocês tiveram que conciliar outros trabalhos. Aí depois veio a virada com os festivais grandes e agora fizeram aí um show num lugar lendário, que é o Circo Voador, no Rio de Janeiro, numa véspera de dia de Consciência Negra. Fala pra gente como que foi esse show, o que a gente pode esperar desse material que vai vir pra gente!
CHARLES – Olha, o que vocês vão assistir é uma coisa impactante. Acho que pro público que tava lá, pra banda, pra Punho de Marim também, que fez a abertura lá e, pô, consagradíssimos lá agora. É muito bacana dar essa abertura. A gente teve também esse respaldo e é bom a gente lembrar que no underground existe essa união, onde anos atrás, o Dead Fish chamou a gente pra poder abrir no Circo, e isso mudou tudo pra gente ali no Rio de Janeiro. A respeito do show, cara, foi uma frenesi total. A gente fez um repertório bem bacana, um repertório extenso passando por todas as fases da banda, mas a energia do lugar, o Circo, né, que a gente cresceu assistindo bandas ao vivo delas no Circo Voador, né? Desde o Biquíni Cavadão até várias outras, né, o Ratos de Porão, várias tiveram seus registros gravados lá, e o nosso foi diferente, tinha uma energia surreal lá. Sabe, a data era muito específica, muito representativa. Então, assim, o que vocês vão ver é uma loucura, a gente também tá louco pra poder assistir isso o mais rápido possível, mas eu prometo pra vocês que vai ser um show de rock brasileiro no seu mais alto nível, desde o público a todo mundo que trabalhou lá, a produção, a equipe. Esse show do Circo foi histórico pra gente de todas as formas. Vocês vão ver, vocês não têm noção do que a gente tá falando.
BOLASHOW – Charles, você que criou e vislumbrou o então Project Black Pantera na época, você acredita que atingiu o objetivo, que já passou do objetivo ou tem mais coisa pra ser construída?
CHARLES – Olha, desde quando eu pensei na banda, no conceito da banda, eu imaginava afetar algumas pessoas, mas com o tempo, a coisa começou a ficar grande, né? Mas pegando pro primeiro ponto, eu acho que ultrapassou tudo aquilo que eu imaginava algum dia. E eu acho que depois que ultrapassa um tanto assim, você acaba querendo mais ou menos. Mas no geral, sim, a gente tá feliz, porque o Black Pantera tem vivido, são onze anos de córre, uma banda do interior, banda preta que tem que ralar duas, três, quatro vezes mais que as outras. Então assim, eu tô feliz pra caramba com o momento que a gente tá vivendo, mas realmente ultrapassou tudo aquilo que eu pensei já um dia, cara. Eu imaginei afetar algumas pessoas na região ali, e hoje em dia tá afetando o Brasil todo, pessoas do mundo inteiro conhecem a gente já. Então assim, que venham mais, que venham mais bandas, a gente não quer ser só a única banda preta. A gente quer que venham mais bandas de todos os estilos, de todas as formas, de todas as cores, amores. E eu acho que isso ajuda a abrir um leque, né? A gente começa a ver as grandes gravadoras de novo apostando no rock’n’roll também. A gente sente que tá acontecendo alguma coisa no rock’n’roll, uma volta grande do rock’n’roll. Mas é bom ver que a molecada hoje em dia com 15, 14 anos tá pegando o violão de novo, fazendo som. Isso é muito importante, né? Caramba, e ter, né, o que o Chaene falou, o letramento, o entendimento que tá no rolê pra que cresçam as pessoas já, com consciência já, sobre tudo isso.
Você pode assistir a entrevista clicando aqui.